17 diciembre, 2018

As sete camponesas unidas por um sonho: a inclusão financeira das mulheres

Fonte:  Assessoria de Comunicação – Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário

Há 18 anos, no estado do Espírito Santo, a camponesa Nelci Sanches da Rocha, 59 anos, vivia em busca de um lugar para morar. Sem-terra, sem amparo se uniu a outras famílias que também estavam em busca da terra para gerar uma vida melhor para seus filhos e parentes.

A camponesa e cerca de 320 famílias estavam abrigadas em uma fazenda chamada Castelo, e devido a disputas de terra, foram despejadas do lugar que chamavam de lar. Sem abrigo, foram em busca de um pedaço de terra para viverem com seus filhos. Enquanto procuravam um novo lugar, essas famílias ficavam acampadas em barracas de lona. Dentre as famílias, existiam mulheres que carregavam consigo a dor de não dar a mínima estabilidade para seus filhos.

Dona Nelci com os 3 filhos e sem propriedade andava à procura de terra, carregando as crianças no colo, com a esperança de achar um espaço. Hoje, ao recordar dos momentos vividos pela busca do lar, se emociona com as condições em que vivia no acampamento. “Sofríamos, pois tínhamos muito medo, éramos ameaçadas. Tivemos que ver nossas roupas, barracas e outros pertences sendo destruídos. ”

Durante a busca muitas famílias se separaram, mas 33 famílias se mantiveram unidas e encontraram uma terra localizada no município Guaçuí (ES). Ao chegarem ao local, a camponesa ressalta que encontraram dificuldades. “Quando chegamos no nosso pedacinho de terra a nossa maior dificuldade foi a produção. ”, relembra.

Foi nas adversidades que nasceu a ideia de sete mulheres camponesas se unirem por um sonho e oferecerem uma renda melhor para a família e, consequentemente, contribuírem na autoestima e qualidade de vida para a comunidade. Juntas formaram o grupo que elas denominaram como “As Camponesas do Assentamento Florestan Fernandes”, do município de Guaçuí (ES).

As camponesas conseguiram participar de um curso oferecido por uma universidade do município. O curso teve duração de dois anos e foi o que impulsionou as mulheres rurais a intensificarem o trabalho do campo. Em 2015, trabalhavam na produção de pães e biscoitos. A comunidade desenvolveu-se e começou a comercializar os pães para os municípios de Guaçuí e São José do Calçado (ES), por meio de programas do governo.

“As Camponesas” trabalham para possibilitar e dar continuidade ao projeto de vida das famílias. Com uma abordagem agroecológica, o grupo de mulheres trabalha em busca do desenvolvimento rural sustentável, por intermédio da manutenção da produtividade agrícola com o mínimo possível de impactos ambientais e em busca de melhoria da renda familiar dos envolvidos.

O grupo da comunidade capacitou-se em diversos meios de produção, empreendedorismo e associativismo, entre os quais, a fabricação de polpa de frutas, pães e biscoitos.

Entretanto, durante dois anos as mulheres enfrentaram uma grande dificuldade. Necessitavam regularizar a produção de polpa de frutas, do suco de laranja e dos doces. Para resolverem essa situação precisavam construir uma estrutura física e adquirir equipamentos para legalizarem o processamento de frutas no assentamento.

Com a venda dos pães, puderam adquirir alguns equipamentos como a despolpadeira – uma espécie de instrumento que auxilia na separação da polpa das sementes –  e o freezer para processar e armazenar as frutas. Por falta de recursos não conseguiram dar continuidade ao processamento das frutas e suspenderam a produção temporariamente.

Atualmente, através de um programa do governo federal, conseguiram recursos para a agroindústria de polpa de frutas e o espaço será inaugurado em janeiro de 2019. As camponesas do assentamento Florestan Fernandes produzem e comercializam pães, doces, geleias e licores nos mercados do município e nas feiras de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

O trabalho no campo com as famílias produzindo alimentos saudáveis e preservando o meio ambiente além de incluir financeiramente outras famílias, fez o legado de Dona Nelci. “Quando eu trilhava um caminho e via que não era o caminho certo, eu mudava de rumo, me fortalecia. Eu lutava e acreditava que seria possível. O segredo sempre será nunca desistir.”

15 dias pela autonomia das mulheres rurais

Os papéis desempenhados pelas mulheres rurais são tão numerosos quanto suas lutas e vitórias. O que não faltam são histórias de vida inspiradoras. No entanto, ainda não possuem o reconhecimento merecido. Sofrem com o preconceito, com a desigualdade de gênero e com outros problemas que herdaram da vida. Ainda há um longo caminho para o equilíbrio de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. A fim de mostrar que equidade de gênero e respeito são valores necessários cotidianamente, a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou que 2018 seria o Ano da Mulher Rural.

Pensando nisso, a partir do primeiro dia do mês de outubro, inicia-se, no portal, uma série de matérias que fazem parte da Campanha Regional pela Plena Autonomia das Mulheres Rurais e Indígenas da América Latina e do Caribe – 2018. Serão 15 dias de ativismo em prol das trabalhadoras rurais que, de acordo com o censo demográfico mais recente, são responsáveis pela renda de 42,2% das famílias do campo no Brasil.