Precisamos de respostas mais rápidas e efetivas dos governos para reverter a crise alimentar que piora em todo o mundo
A situação é dramática e estarrecedora. Estudos já indicam que a perspectiva para este ano é que o número de pessoas desnutridas no mundo, que atualmente já alcança a marca de 690 milhões, aumente para mais 132 milhões de indivíduos nos próximos meses. Cada componente dessa vergonhosa cifra é uma vida privada do direito humano de se alimentar com dignidade, e reforça ainda mais o caráter de urgência em agir mais rapidamente para resolver essa grave questão humanitária global.
É certo que esta crise, que já vinha se arrastando nos últimos anos em ritmo preocupante, tem como agravante os inesperados impactos da pandemia de Covid-19 na maioria dos países. E que este novo cenário demanda respostas inovadoras e eficientes dos governos, caso contrário, a humanidade afundará cada vez mais no abismo da fome.
Essa é a essência da mensagem que a sociedade civil e os povos indígenas, articulados em um Mecanismo (MSC) do próprio CSA, levaram às autoridades governamentais de diversos países presentes na 47ª Sessão Plenária Virtual do Comitê Mundial de Segurança Alimentar (CSA), realizada pela FAO entre os dias 8 e 11 de fevereiro.
Em discurso no plenário, nas atividades paralelas da sessão e através de um documento elaborado conjuntamente, as organizações sociais representantes de milhares de trabalhadores(as), agricultores(as), campesinos(as), povos indígenas e outras comunidades que integram o MSC, como a COPROFAM, expressaram a crescente preocupação com o avanço da insegurança alimentar, e cobraram mais sensibilidade e engajamento dos governos diante dos desafios mais prioritários, especialmente aqueles relacionados às consequências da crise sanitária de Covid-19.
As organizações fizeram também críticas contundentes aos sistemas alimentares atuais, que excluem os sujeitos responsáveis pela produção sustentável de alimentos e priorizam monopólios e cadeias de produção agressivas à natureza, aos trabalhadores envolvidos e até mesmo aos consumidores finais. Na visão do MSC, esses sistemas deveriam ser estruturados de maneira a fortalecer as produções sustentáveis e as cadeias que ampliam e favorecem o acesso à alimentação, como estratégia para garantir mais soberania e segurança alimentar às populações.
Desde as OAFs, reforçamos que uma das maneiras de promover sistemas alimentares mais resilientes e sustentáveis é investindo recursos na Agricultura Familiar, Campesina e Indígena, que atualmente já se encarrega de 80% de toda a produção mundial de alimentos. Se mais valorizada, principalmente com políticas públicas diferenciadas que ofereçam mais infraestrutura e incentivo ao cultivo de alimentos pelas famílias em seus territórios rurais, a AFCI é capaz de expandir ainda mais esse potencial de produção e alimentar mais pessoas, enquanto preserva recursos naturais e culturas tradicionais.
Há um tempo que o MSC pede aos governos que revisem suas políticas relacionadas às cadeias alimentares de seus territórios, mas agora esse pedido vem reforçado com o tom de urgência que a pandemia colocou sobre a questão. A própria crise de desabastecimento de alimentos desencadeada pela Covid-19 em alguns países deixou ainda mais evidente esta demanda pela transformação dos sistemas alimentares, reorientando-os à produção sustentável, cuidado ambiental e consumo responsável.
Nesse sentido, é de suma importância que esses governos utilizem esse espaço de diálogo político intergovernamental tão importante que é o CSA para traçar estratégias coordenadas e multilaterais para resolver os problemas postos, articulando-se com as agências multilaterais da ONU, como o FIDA e a FAO, para obter êxito.
Há ainda outros marcos políticos já estabelecidos a nível global, com respaldo da ONU, que oferecem caminhos para que os problemas de segurança e soberania alimentar comecem a ser resolvidos de fato. A Década da Agricultura Familiar é um deles, que apresenta planos e estratégias para que a Agricultura Familiar, Campesina e Indígena de todos os continentes amplie seus potenciais de alimentar cada vez mais pessoas com alimentos de qualidade e com a dignidade que todo ser humano merece.
Marcos como esses precisam de mais atenção e ação por parte dos governos para que contribuam na prática, e não fiquem apenas no planejamento. É preciso um olhar mais responsável e estratégico dos governos para que os indicadores da fome comecem a reduzir, na esperança de que um dia cheguem a zero, tal como projeta a Agenda 2030, em um dos seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
O apelo por transformações parte da juventude, das mulheres e dos homens de diversos territórios, que dedicam sua força de trabalho para produzir alimentos, mas não recebem a valorização que suas atividades e seus esforços merecem.
Não há tempo a perder e o mundo precisa de respostas imediatas para acabar com a fome. Desde as organizações da sociedade civil, estamos dispostos a contribuir com propostas que dialoguem com a realidade e as necessidades das comunidades, mas precisamos do respaldo das instituições para avançar neste trabalho.
Alberto Broch, presidente da COPROFAM


