Melhor uso da água e a oportunidades de renda para comunidades do Nordeste brasileiro

Na lista de dificuldades e desafios que as comunidades de agricultores(as) familiares enfrentam para produzir alimentos no norte da Bahia, o acesso à água é uma das que mais se destacam. Isso porque essa parte do estado, localizado na região Nordeste do país, é marcada pelo bioma Semiárido, onde o clima seco, com chuvas escassas e temperaturas muito altas, dificulta a existência de grandes fontes naturais de água. Esse problema demanda não só investimento, mas também criatividade para que a famílias que habitam a área tenham água suficiente para abastecer suas produções, e foi com esses recursos e o trabalho de equipes técnicas, que o Programa Pró-Semiárido mudou a realidade de comunidades do distrito de Massaroca, do município de Juazeiro.

O Programa Pró-Semiárido é uma iniciativa do governo da Bahia que conta com o financiamento do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) da Organização das Nações Unidas (ONU). Foram investidos cerca de R$ 300 milhões de reais em projetos distribuídos por 32 municípios do estado. O objetivo deste programa é beneficiar pelo menos 70 mil famílias agricultoras rurais, entre assentadas, quilombolas, indígenas, e assim avançar na erradicação da pobreza no estado, que atualmente tem 13% de sua população em situação de extrema pobreza (dado da Síntese de Indicadores Sociais – SIS 2019 – divulgado em novembro deste ano pelo IBGE).

Para iniciar os projetos do Programa, em 2016 os grupos técnicos escalados para atuarem no âmbito do Pró Semiárido foram a campo identificar as principais demandas dessas comunidades rurais baianas. Ao chegarem em Massaroca, identificaram primeiramente a pouca quantidade de água potável disponível para os moradores utilizarem em suas produções. Em um segundo momento, perceberam uma situação de desperdício da água utilizada nos domicílios, questão que com o uso de assistência técnica apropriada, poderia ser revertida para melhor aproveitamento dessa água.

Quem conta mais é um dos técnicos de Desenvolvimento Produtivo do Pró-Semiárido, Victor Leonan, que atuou no trabalho feito em Massaroca. “Ao irmos até as comunidades para estudá-las e fazer as primeiras conversas com os moradores sobre o Projeto, percebemos em algumas casas uma quantidade interessante de água que passava pelas pias e chuveiro da casa e depois era descartada nos quintais de forma inapropriada, formando poças. Pesquisamos sobre uma possível captação e reutilização dessa água, buscamos referências em outros projetos como o Don Helder Câmara, também ligado ao FIDA, e na ONG baiana IRPAA – Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada, e encontramos um sistema de baixo custo e grande eficiência”, explica ele.

foto: Elka Macedo

O sistema em questão promove a captação dessa água e sua purificação para utilização na importante tarefa de regar plantas. Pode ser aplicado de duas maneiras: reutilização de água cinza (chuveiro, pia do banheiro e da cozinha) e água marrom (todas essas e também água da privada). O valor final ficou em R$ 2.500 para água cinzenta e R$ 3.500 para água marrom. Ambos foram apresentados para as comunidades de Massaroca, e a princípio apenas três famílias aceitaram testar os sistemas.

Clarice Evangelista, da comunidade de Curral Novo, foi uma das agricultoras que acreditou no projeto logo de início. “Eu já havia feito por conta própria um sistema de captação que jogava as sobras de água para a minha produção de palma e capim, que uso para alimentar as cabras e ovelhas que tenho em minha propriedade. Mas não estava tendo muito sucesso, pois juntava muitos mosquitos. Por isso vi o projeto deles e me interessei em fazer isso de forma mais profissional com apoio do Pró-Semiárido”, conta Clarice, que optou pelo sistema de reutilização de água marrom. “Os vizinhos da comunidade não acreditavam, me chamavam de doida de querer reutilizar a água até da privada. Mas eu gostei do projeto que os técnicos apresentaram e acreditei que seria bom. Até ajudei na construção”, comenta. Hoje o sistema está funcionando bem e a plantação de palma de Clarice está “bem cheia e verdinha”.

Além de atender a demanda por água para plantio, o sistema de reutilização ainda resolve outro problema: a falta de saneamento básico na região. “O estado em que a água ficava antes, empoçada no quintal, podia até mesmo gerar problemas de saúde para os moradores. Dessa forma, o sistema de reutilização atua também como uma opção de saneamento, e resolvemos dois problemas com a ajuda da tecnologia”, comemora o técnico Victor. Após o êxito nas três primeiras residências, o projeto conseguiu montar mais sistemas em outras casas e beneficiou outras 24 famílias.

foto: Elka Macedo

Outra contribuição do Pró Semiárido para melhorar o acesso dos(as) agricultores à água aconteceu na comunidade de Cachoeirinha, também em Massaroca. Lá os moradores e moradoras já haviam construído, em meados de 2006 e com recursos de outro projeto ativo na época, uma barragem para uso da comunidade. “Na época conseguimos instalar essa barragem, mas não pudemos equipá-la totalmente para aproveitar a água de maneira mais sustentável”, conta o líder da Associação de moradores de Cachoeirinha, Pedro Duarte, “mas o Pró Semiárido chegou com mais recursos, e aí foi possível fazer melhorias que hoje estão dando muito retorno para nós”, diz ele. O programa financiou a instalação de um sistema de bombeamento por energia solar e irrigação por gotejo, que liga a barragem diretamente para o ensaio forrageiro da comunidade.

foto: Elka Macedo

O ensaio forrageiro é uma estrutura onde se faz o cultivo de plantas como a moringa, o sorgo, a palma, entre outras, que podem ser utilizados como ração para animais. Com o ensaio melhor estruturado e apresentando uma boa produção, as famílias agricultoras que antes tinham que comprar ração em outro lugar para manter os animais, principalmente no período de seca mais forte, hoje não precisam mais fazer esse investimento. Em nove meses de funcionamento do sistema, uma tonelada de plantas forrageiras foram produzidas, e compartilhadas por todas as famílias que trabalham com criação de animais na comunidade.

Pedro Duarte destaca a atuação da equipe técnica do Pró-Semiárido. “Fomos muito bem assistidos desde o começo do trabalho, e aprendemos muito. Mas também ensinamos muitas coisas para os técnicos da nossa experiência própria, então foi uma troca de conhecimentos muito boa”, avalia.

Outras contribuições do Pró-semiárido em Massaroca

Além da transformação na relação das famílias agriculturas com o uso da água, o Pró-Semiárido promoveu outras melhorias no trabalho agrícola das comunidades. Além das já citadas Curral Novo e Cachoeirinha, o distrito também possui outras, como Canoa, onde o principal investimento do Programa foi a instalação e ampliação de galinheiros. Essas estruturas também foram instaladas em outras propriedades das demais comunidades, e na estimativa geral feita por Victor Leonan, as famílias já estão produzindo, em conjunto, uma média diária de 1.500 ovos. Esta melhoria produtiva serviu de estímulo para que os agricultores e agricultoras se organizassem melhor para comercializar essa produção, e eles criaram a COFAMA, que também recebeu recursos do Pró-Semiárido para contar com um espaço para beneficiamento dos ovos produzidos pelos associados(as),  onde eles passam pelos processos necessários para comercialização.

Jaciara Lima, de Canoa, foi uma das beneficiadas pela ampliação dos quintais. Hoje ela cria 300 galinhas, produz cerca de 7 dúzias diariamente  e é membro da cooperativa. Jaciara aponta grande melhoria na renda familiar graças a esse impulso produtivo promovido pelo Pró-Semiárido em sua comunidade. “Gostei muito de participar do programa, pois além de possibilitar a melhoria de minha renda, também me ensinou muito, a partir do trabalho de assistência dado pelos técnicos. Eles ouviam muito as nossas demandas e buscavam as soluções que melhor atendiam a gente naquele momento. Avalio muito positivamente o que o Pró-Semiárido fez por nós aqui em Massaroca”, diz Jaciara.

Enquanto profissional que estava do lado de lá do programa, na execução, Victor também tem ótimas considerações sobre o Pró-Semiárido:  “O diferencial desse programa é que ele não foi pensado em escritórios. Eles foi a fundo nas necessidades que as famílias tinham. Com metodologias participativas, conseguiu envolver diretamente todos os beneficiados, e assim chegamos o mais próximo possível de resolver essas necessidades, usando a tecnologia e o conhecimento técnico”, diz Victor, que é engenheiro agrônomo. “O melhor foi ver que hoje as famílias se sentem capacitadas para dar continuidade ao que fizemos em suas comunidades, e que hoje elas tem mais noção sobre uso da água de forma mais consciente”, conclui ele.

O Pró Semiárido está já finalizando as atividades realizadas nesses últimos três anos, mas as transformações que promoveu pelo caminho certamente serão permanente na vida dos agricultores e agricultoras familiares que ele buscou impactar.

Contatos:

Victor Leonan – Técnico de Desenvolvimento Produtivo do Pró Semiárido
(74) 9812-1071

Clarice Evangelista – Comunidade de Curral Novo
(74) 99931-5894

Pedro Duarte – Comunidade de Cachoeirinha
(74) 99950-1801

Jaciara Lima
(74) 99994-0204