Cooperativa com fortes políticas de gênero e geração prospera no Rio Grande do Sul
Quando a cooperativa trabalha sob a perspectiva de impactar verdadeiramente as comunidades em que atua, e não apenas comercializar as produções dos agricultores associados, os resultados são claramente positivos e marcantes. É o caso da Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Taiti, Terra de Areia e Três Forquilhas – COOMAFITT, situada no litoral norte do estado do Rio Grande do Sul, que se tornou referência para outras regiões, sendo inclusive uma das experiências visitadas no intercâmbio cooperativo do MUCECH no Brasil, realizado em agosto. A COMAFITT é um caso de sucesso em autogestão dos cooperados, inclusão da juventude e das mulheres agricultoras nas atividades, trabalho integrado com outras cooperativas, transparência administrativa e grande desenvolvimento a partir de políticas públicas.
Nascida em 5 de setembro de 2006, desafiando o contexto onde o cooperativismo não gerava muita confiança nos agricultores da região devido a algumas experiências prévias falhas, a COMAFITT surgiu da necessidade dos produtores de se organizarem de maneira eficiente para comercializarem suas produções sem dependerem de atravessadores. Esse início foi marcado por grande apoio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMATER da região.
Foi em 2008 que a COOMAFITT acessou a primeira política pública federal que impulsionou o trabalho: o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade Compra com Doação Simultânea. Esta política promove compra das produções pelo governo e doação dos alimentos para famílias de baixa renda em situação de insegurança alimentar. “O PAA foi fundamental para organizar os primeiros processos, pois até então os agricultores produziam aleatoriamente, sem saber quanto poderiam comercializar. A política trouxe garantia de vendas fixas, e isso possibilitou melhor planejamento para todos os associados”, conta o atual presidente da COOMAFITT, Bruno Engel Justin.
Dois anos depois, em 2010, a Cooperativa pôde adentrar em um mercado bem maior e chegar aos centros urbanos, através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), onde a compra estatal é destinada a escolas públicas. Isso motivou ainda mais os cooperados a se organizarem individualmente e coletivamente, e também contribuiu para a entrada de mais pessoas para a COOMAFITT. Hoje são 270 agricultores e agricultoras associados, que recebem o repasse direto de 75% das vendas. Com essas duas políticas, em 10 anos a Cooperativa conseguiu aumentar o faturamento em 82 vezes.

Paralelo às políticas acessadas pela cooperativa, os agricultores associados também passaram a acessar o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), que possibilitava a eles melhorias estruturais nas propriedades, o que impacta diretamente na qualidade das produções e no desenvolvimento da COOMAFITT.
Em 2015 a cooperativa passou a atender uma nova modalidade do PAA, a de Compra Funcional, que possibilita que estados, municípios e órgãos federais da administração pública direta e indireta comprem alimentos da agricultura familiar com seus próprios recursos financeiros e sem processos burocráticos. Esses alimentos se destinam a universidades, quartéis, hospitais e outras estruturas públicas.
Autonomia e transparência como políticas internas
Um dos princípios da COOMAFITT é a autogestão de seus participantes. Bruno Engel explica: “Nós queremos que os agricultores e agricultoras participem como gestores, e não meros fornecedores. Claro que contamos com uma diretoria e equipe administrativa estruturada, mas ter os produtores participando ativamente de todos os processos possíveis nos aproxima do papel social de oferecer soluções para os agricultores e trazer melhorias reais para suas comunidades”, explica. “Essa possibilidade de autonomia também veio dos processos das políticas públicas”, completa Bruno.

A transparência em todas as contas, dados e documentações geradas na cooperativa também é uma das propostas da COOMAFITT, como mecanismo para gerar mais confiança e segurança pra que todos participem e usufruam dos benefícios de trabalharem de forma cooperada. Nesse sentido, os associados podem solicitar acesso aos extratos e contas sempre que quiserem.
Políticas para a juventude rural e para as mulheres agricultoras
A forma como a COOMAFITT contempla a juventude é outro destaque, que se reflete primeiramente na diretoria. O presidente, a vice-presidente e o tesoureiro da cooperativa são jovens, e a juventude também está fortemente presente nos Conselhos Administrativo e Fiscal da organização. Desde 2015, a COOMAFITT tem um grupo composto por jovens das famílias associadas, que se reúnem com frequência para discutirem estratégias e tomarem decisões para melhorar cada vez mais o trabalho da cooperativa.
“Esse tipo de trabalho com a juventude é estratégico para empoderá-la e incentivá-la a permanecer no campo e dar continuidade à agricultura familiar. Não adianta os jovens atuarem em suas famílias apenas como mão de obra, sem terem autonomia financeira ou decisiva para se desenvolverem como agricultores geradores de renda para eles e elas mesmos(as). Esse debate é frequente na COOMAFITT”, conta Bruno.

Quando o assunto é gênero, a entidade também dá grande passos para promover mais participação das agricultoras nos processos e rendimentos. Em 2014 notou-se que o quadro de associados só tinha 12% de mulheres. A diretoria foi para dentro das comunidades para investigar o porquê dessa taxa de participação tão baixa, e ouviu das próprias mulheres várias questões que as afastavam do envolvimento com a cooperativa, questões essas que foram trabalhadas para que houvesse mais incentivo e equidade na participação delas, a exemplo de políticas de cotas para agricultoras nos pedidos. Essas iniciativas fizeram com que hoje o quadro aumentasse para 35% de mulheres cooperadas.
Rede colaborativa de cooperativas
Buscando fortalecer a agricultura familiar em todo o Rio Grande do Sul e otimizar a acesso das produções a regiões distintas do estado, a COOMAFIT começou a se relacionar com outras cooperativas gaúchas, gerando a Rede de Cooperativas da Agricultura Familiar e da Economia Solidária, que conta com 43 cooperativas de 29 municípios, e é coordenada pela própria COOMAFIT. Por meio das parceiras internas, a rede integra alimentos sazonais de cada território, viabiliza a logística, diminui custos e potencializa a qualidade dos serviços prestados e alimentos produzidos por cada cooperativa. Com esse trabalho conjunto, as cooperativas conseguem melhorar suas capacidades logísticas e atender à diversidade e qualidade dos alimentos e serviços prestados.

Entre frutas, verduras e legumes, a COOMAFITT comercializa uma variedade de 88 tipos de alimentos, e oferta mais de 7 mil toneladas de produtos, que chegam a mesa de milhares de pessoas. Hoje um dos focos é o fortalecimento do trabalho das famílias associadas com agroecologia, em processos de adaptação de propriedades e capacitação dos produtores e produtoras para trabalharem com esse modelo. “Enxergamos a agroecologia como uma ótima oportunidade de gerar mais qualidade de vida aos agricultores(as), e também de acessar mais mercados, pois atualmente os alimentos cultivados agroecologicamente são muito procurados pelos consumidores. Acreditamos ainda que jovens e mulheres são fundamentais no fortalecimento desse modelo, e contamos com eles e elas nessa fase da nossa cooperativa”, conclui o presidente da COOMAFIT.
Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Taiti, Terra de Areia e Três Forquilhas – COOMAFITT
Site: http://www.coomafitt.com.br/
Facebook: https://www.facebook.com/coomafitt/
Contatos telefônicos: (51) 99860-6532 / (51) 99855-8133 / (51) 99583-4600


