A partir de política de reforma agrária, produtores(as) de cacau da agricultura familiar da Bahia recuperam área, formam cooperativa e consolidam marca de chocolates de excelência

Antecedentes

O Brasil é hoje o 7º maior produtor de cacau do mundo. Internamente, o país conta com dois estados que lideram a produção deste fruto: o Pará e a Bahia. Juntos, eles são responsáveis por cerca de 93% da produção nacional, e tem a agricultura familiar como parte fundamental deste trabalho. Apenas na Bahia, estado da região Nordeste do país, estão cadastrados 68 mil propriedades onde se cultiva o cacau, sendo 80% delas da agricultura familiar.

A história de êxito que a Confederação Nacional de Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG) conta hoje se passa na Bahia, ao sul do estado, mais precisamente no município de Ibicaraí. É a história da fábrica de chocolates, primeira agroindústria de chocolates da agricultura familiar do Brasil, e marca própria “Bahia Cacau”, da Cooperativa da Agricultura Familiar e Economia Solidária da Bacia do Rio Salgado e Adjacências (Coopfesba), que nasceu a partir de um Projeto de Assentamento contemplado pelo Programa Nacional de Reforma Agrária, importante política pública brasileira de acesso à terra, que possibilitou que 30 famílias começassem uma nova vida em um pedaço de terra própria, e caminhassem juntas rumo a um projeto muito próspero

Superação da praga “Vassoura de bruxa”

Historicamente, o sul da Bahia sempre foi uma área muito propícia para o cultivo dos cacaueiros, devido ao seu bioma Mata Atlântica, favorável às necessidades dos frutos. Mas parte desta história foi marcada de maneira muito negativa pela infestação de uma praga, que durou três décadas, e causou graves efeitos socioeconômicos e ambientais para as regiões de cultivo. Para se ter uma ideia do problema gerado, da safra de 1990 até a de 2000, a produção de cacau na Bahia caiu de 356 para 98 mil toneladas.

A Vassoura de bruxa, como é conhecida popularmente o fungo, por deixar os ramos dos cacaueiros secos com o aspecto de uma vassoura de palha, começou a se espalhar nas fazendas da região na década de 80, causando muito prejuízo aos grandes fazendeiros locais. Com o agravamento da praga, por volta de 1999 os assalariados rurais que trabalhavam nestas propriedades foram sendo demitidos, e se reunindo em acampamentos próximos às fazendas. Um desses acampamentos, que posteriormente se tornou um Projeto de Assentamento (PA), foi o Etevaldo Barreto Pelé, que reunia 30 famílias.

Com tantos prejuízos acumulados e dificuldades de vencer a praga, muitos agricultores abandonaram a actividad e também suas tierras. A Fazenda Santana foi uma delas, sendo desapropriada pelo governo federal em meados de 2001. Os assalariados e assalariadas do PA Etevaldo Barreto Pelé logo pleitearam a área desapropriada junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), e com muita luta e  o apoio da CONTAG, da Federação de Trabalhadores na Agricultura do estado da Bahia (FETAG-BA) e do Sindicato de Trabalhadores Rurais do município de Ibicaraí nesse processo, conquistaram o direito legal de ocuparem a terra no ano de 2002, através do Programa Nacional de Reforma Agrária operado pelo INCRA. Para estruturar as casas das famílias assentadas, os agricultores acessaram o Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR) no mesmo período.

Mas a terra continuava infestada pelo fungo da vassoura de bruxa, e foi necessário o apoio do governo estadual da Bahia, com políticas de assistência técnica, para reverter a situação e recuperar as lavouras. Os agricultores e agricultoras familiares assentados na área poderiam ter investido seus esforços em outros cultivos naquelas terras, mas optaram por manter a tradição do cacau. “A produção do cacau e do chocolate perpassa pela questão cultural da nossa região, e quisemos valorizar isso”, explica Osaná Crisóstomo do Nascimento, diretor-presidente da Bahia Cacau/Coopfesba.

Osaná destaca também que nos primeiros momentos de assentamento das famílias, outros programas e políticas públicas do governo foram essenciais. “O Fome Zero foi crucial no desenvolvimento das famílias. Na época era um programa forte e com recursos, e isso fortaleceu as famílias no momento de crise, quando ainda não havia cultivo para gerar renda”, conta ele.

Cooperativismo impulsionando a expansão e melhoramento da produção

Diante das conquistas obtidas e com a produção do cacau começando a ganhar fôlego, os agricultores e agricultoras assentados começaram a se organizar formalmente para melhorarem suas possibilidades de acesso à outras políticas públicas. Assim nasceu, em 2010, a Cooperativa da Agricultura Familiar e Economia Solidária da Bacia do Rio Salgado (Coopfesba), hoje constituída por 104 agricultores(as) familiares de Ibicaraí e de outros municípios da região Sul da Bahia, e focada na produção e beneficiamento de cacau.

A Cooperativa busca gerar benefícios reais aos cooperados e suas produções, e para isso conta com capacitação em cultivos, Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) e formação de jovens empreendedores rurais oferecidos pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), instituição pública de pesquisa vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). A Coopfesba conta também com suporte do governo da Bahia, por meio da Subsecretaria do Desenvolvimento Rural (SDR), com ações que vão desde a qualificação da base de produção até o acesso aos mercados.

Com todo esse suporte qualificado, a Coopfesba obtem plena capacidade para operar a primeira fábrica de chocolate da agricultura familiar do Brasil, a Bahia Cacau, que também dá nome à exitosa marca de diversos produtos que tem como base o cacau.

A agregação de valor e o acesso aos mercados pela Bahia Cacau

Com tanto cuidado e investimento em qualidade de produção do cacau, nada mais justo que haja incentivo também para a transformação e beneficiamento do fruto em diferentes produtos. É o que faz a Bahia Cacau, sediada também em Ibicaraí, que a partir das produções dos cooperados da Coopfesba produz chocolates que variam de 35% a 70% de cacau, preparados em barras de 20g e 80g, além de nibs de cacau (também são conhecidos como amêndoas de cacau), geleias, mel de cacau, licor de mel de cacau e bombons recheados com abacaxi, banana, goiaba, umbu e muitas outras opções. Vale destacar que esses recheios também utilizam frutas da agricultura familiar de outras cooperativas da região, movimentando ainda mais a economia e fortalecendo o cooperativismo local.

     

 

Para construir a fábrica, foi fundamental o apoio do projeto Bahia Produtiva, executado pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR/SDR) do governo da Bahia, com co-financiamento do Banco Mundial. Em sua totalidade, o projeto investiu nos últimos cinco anos cerca de 30 milhões de reais em estruturas de melhoramentos de sistemas produtivos de cacau em distintas regiões baianas, impactando aproximadamente 1,3 mil famílias concentradas em cooperativas e associações de produtores. Apenas para a Bahia Cacau foram direcionados 3 milhões de reais deste orçamento.

“O Bahia Produtiva também incentiva os produtores individualmente, com equipamentos que ajudam a evoluir e mecanizar a produção do cacau, como motosserra, podador, estufa…”, explica Osaná. Segundo ele, são investidos cerca de R$ 18 mil por família, com 80% do valor financiado pelo programa e os outros 20% de contrapartida do produtor.

Wilson Silva Lima, um dos agricultores cooperados que produz para a fábrica, está há 25 anos trabalhando com o cacau, dando continuidade a produção de seus pais, e comemora os resultados obtidos para ele e outros produtores locais.  “Com esse apoio do governo do estado, conseguimos recursos para melhorar a estrutura da fábrica e agregar valor ao nosso chocolate, que já está sendo vendido aqui e até em outros estados. É um processo lento e a longo prazo, mas de uma importância muito grande para os municípios, pois gera emprego e renda e tudo o que a gente quer é produzir e ter nosso emprego e essa estabilidade”, afirma.

Cacau agroflorestal e sustentável

Por último, e não menos importante, vale mencionar que o cultivo do cacaueiro, em sua maioria, é feito de maneira agroecológica – estima-se que 70% da produção total de cacau na Bahia siga essa lógica. Isso quer dizer que, além de preservar as espécies florestais nativas e características, a produção contribui para a retenção de água, manutenção dos recursos hídricos e também da fauna original.

Os chocolates da Bahia Cacau têm como matéria-prima básica o cacau fino, produzido com cultivo agroflorestal Cabruca, técnica que utiliza a sombra das árvores nativas da Mata Atlântica. A matéria-prima é 100% livre de transgênicos, comprovado pelo Centro de Inovação do Cacau CIC, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). A Bahia Cacau está atualmente em processo para obtenção o Selo Orgânico

 

 

Alguns números deste caso exitoso

A Coopfesba processa 2.500 quilos de amêndoas de cacau por mês, sendo mil quilos destinados para produção de nibs e 1.500 quilos para produção de chocolate em barras e seus outros produtos.

Os produtos da Bahia Cacau são comercializados em 40 municípios da Bahia e seis estados brasileiros.

Eles são encontrados em lojas de franquias da marca, supermercados, padarias, lojas de conveniência e de produtos naturais, restaurantes e plataformas marketplaces especializadas em delivery de alimentos.

O faturamento anual da Coopfesba é de R$ 900 mil, e todos os 104 cooperados tem uma renda mensal de um salário mínimo (R$ 1.100).

 

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Videos del caso de exito 

 

Contatos da Bahia Cacau

Site: https://www.bahiacacau.com.br/

E-mail: coopfesbaibicarai2010@hotmail.com

Telefones: +55733242-3951 • +55733242-2227

Endereço: Rodovia Itabuna – Ibicarai – Km 54, SN, Br 415 – Assentamento Santana Ibicaraí/BA – CEP 45745-000